terça-feira, 8 de setembro de 2009

O eu fragmentado

"Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe.
Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me aponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo.
Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única central realidade que não está em nenhuma e está em todos.
Como o panteísta se sente onda e astro e flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens incompletamente de cada, individuado por uma suma de não-eus sintetizados nem eu postiço."
Fernando Pessoa

É incrível como hoje, especialmente, me identifico com esta autobiografia. Talvez porque diga tudo, tudo o que é e o que nunca vai ser como um auto-retrato meu.

3 comentários:

PR" disse...

:)
como é possivel que por vezes alguém escreva exactamente aquilo que sentimos?!

Pedro F disse...

Ainda não conhecia este... mas leio bastantes coisas dele. Se gostas, então ficam alguns versos (que já utilizei pra descrição) de várias obras do senhor ;)

«Nada me prende a nada.
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo.

Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.

Longe de mim em mim existo
À parte de quem sou,
A sombra e o movimento em que consisto.

(...) sou alguém.

Procuro dizer o que sinto
Sem pensar em que o sinto.
Procuro encostar as palavras à ideia
E não precisar dum corredor
Do pensamento para as palavras

Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.

Sou vil, sou reles, como toda a gente
Não tenho ideais, mas não os tem ninguém.
Quem diz que os tem é como eu, mas mente.
Quem diz que busca é porque não os tem.

Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu

Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.

Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram? »

Bituca disse...

Obrigado Pedro, gosto muito de Fernando Pessoa e da maneira como ele escreve, do que que escreve :)